terça-feira, 6 de novembro de 2012

PARÁBOLA DO GRÃO DE MOSTARDA



Uma mulher com olhos inchados e a cara banhada em lágrimas
E as mãos ao alto - saudou inclinando-se profundamente:
“Senhor tu és aquele, disse, “que ontem
Teve piedade de mim no bosque de figueiras,
Onde vivo só e crio o meu filho: mas ele
Vagando entre as flores encontrou uma serpente,
Que se enroscou na sua mão, enquanto ria
E brincava com a bífida língua e a boca aberta
Desta fria companheira de jogo. Mas ai! Não tardou
Em tornar-se tão pálido e quieto, que não podia crer
Porque deixou de brincar e meu peito se soltou
De seus lábios. E alguém disse: “Está mau,
Envenenado; e outro: “Há de morrer”.
Mas eu que não podia perder meu precioso filho,
Roguei para um médico, que pudesse devolver a luz
A seus olhos; era tão pequena a marca
Do beijo da serpente, e creio
Que não podia odiar-lhe, gracioso como era,
Nem feri-lo na brincadeira. E alguém disse:
“Há um homem santo na colina -
Olha! Agora passa com seu manto amarelo -
Pergunte a ele se há algum remédio
Para o mal que aflige teu filho.” Então vim
Tremendo a ti, cuja fronte é como a de um Deus,
E chorei e retirei o lenço da cara de meu menino,
Rogando-te me digas que métodos pudessem ser bons.
E tu, Grande Senhor! Não me rechaçando, mas miraste
Com olhos gentis e tocaste com mão paciente;
Logo o cubriste outra vez a cara, dizendo-me:
“Sim, irmã, há o que pode curá-lo
Primeiro a ti e logo a ele, se podes buscar esta casa;
Pois aqueles que buscam um médico lhes levam o
Que os ordenou. Portanto te rogo, encontra
Um negro grão de mostarda; porém recorda
Que não hás de tomá-lo de mão nem de casa
Onde pai, mãe, filho ou escravo haja morto;
Te irá bem se podes achar tal grão.”
Assim tu falaste, meu Senhor!”
O Mestre sorriu
Com extrema ternura: “Sim, te falei assim,
Querida Kisagotami! Porém, acaso achaste
O grão?”
“Fui, Senhor, estreitando contra meu peito
O menino, que estava esfriando, perguntando em cada casa
Aqui na selva e perto da cidade -
“Vos rogo me deis um grão de mostarda vossa”;
E todos os que tinham, deram
Porque todos os pobres têm piedade dos pobres;
Mas quando perguntava: “Na casa de meu amigo
Não há morto por acaso alguém -
Esposa ou mulher ou menino ou escravo?”, eles disseram
Oh irmã! Que nos perguntas? Muitos são os mortos
E os que vivem, poucos!
Por isto agradecendo com triste voz devolvi a mostarda;
E pedi a outros; porém os outros disseram:
“Eis aqui a semente, porém nós perdemos nosso escravo!”
“Eis aqui a semente, porém nosso bom homem é morto!”
“Eis aqui a semente, porém aquele que a semeou está morto
Entre a estação das chuvas e a colheita!”
Ah!, Senhor! Não pude achar uma só casa
Onde houvesse sementes de mostarda e ninguém estivesse morto!
Ah, Senhor! Não pude achar uma só casa
Portanto deixei a meu menino, que não queria mamar
Nem sorrir - junto à vinha silvestre perto do rio,
Para buscar teu rosto e beijar teus pés, e rogar
Onde possa encontrar esta semente, e não encontrar morte
Se em verdade meu filho não esteja agora morto,
Como o temo, e me têm dito.”
“Minha irmã! Você encontrou”, disse o Mestre,
“Buscando algo que ninguém encontra - o bálsamo
Que devia dar-te. Aquele que amavas dormia
Morto sobre teu peito ontem: hoje
Sabes que todo o grande mundo chora tua mesma dor:
O pesar que todos compartem é menor para um.
Olha! Derramaria meu sangue se pudesse deter tuas lágrimas
E conquistar o segredo desta maldição
Que faz do doce amor nossa angústia
E leva flores e pastos ao sacrifício -
Como o fazem as mudas bestas - e seus senhores, os homens
Busco este segredo: anda e enterra a teu filho!”