terça-feira, 27 de novembro de 2012

LUTO DO FILHO - Marie Claire

LUTO DO FILHO
A dor que não tem nome
Por Eliane Trindade e Fernanda Cirenza

Tiago, 21 anos, Camile, 18, Tarsila, 15, não tiveram chance de viver mais. Para as mães que ficam, é duro se confrontar com a realidade de que nem sempre o curso da história segue a ordem natural das coisas. Só a violência no Brasil provocou, em 2000, a morte prematura de mais de 17 mil jovens entre 15 e 24 anos, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. 'Perder um filho é como perder um pedaço de si', resume Claudia Ferrão, 30, psicóloga e psicanalista, do Day Care Center, entidade paulistana que atende pacientes de câncer e familiares. Os sintomas do luto são choque, depressão, revolta, impotência, sensação de fracasso, negação, raiva, culpa, angústia. 'É um processo de mudança em que a família vai ter de aprender a viver sem aquele que partiu', diz Maria Helena Pereira Franco, coordenadora do Laboratório do Luto, o Lelu, serviço de assistência psicológica mantido pela PUC de São Paulo. 'Quem vive a perda não volta a ser a pessoa que era antes, porque a morte altera valores e hábitos.' Apesar de o luto não ter tempo certo para terminar, há maneiras de superá-lo. 'É importante falar da morte, mesmo ela deixando uma marca profunda na vida de quem fica', diz Claudia. O enlutado, afirma Maria Helena, tem de usufruir de todo o apoio que puder. 'Deve contar com a família, com os amigos, com a religião, com qualquer tipo de apoio que ajude a pessoa a construir o significado da morte.' Ela ressalta que voltar à rotina também contribui na elaboração da perda. 'É fundamental entender que a vida continua.' A psicóloga Gláucia Rezende, que perdeu a filha Camile há mais de quatro anos, descobriu que não existe, em nenhum idioma, uma palavra para definir a morte de um filho. 'É uma dor que não tem nome, algo que não se espera.' Ela, Christine, mãe de Tiago, e Maria Lúcia, mãe de Tarsila, contam como enfrentam a vida sem seus meninos.


Gláucia Rezende Tavares, 47 anos, psicóloga e professora universitária. Mãe de duas filhas. Camile morreu aos 18 anos, em 21 de abril de 1998, em Belo Horizonte (MG)

'Minha filha morreu num acidente de carro. Nem pôde ser socorrida. Perder um filho subverte uma ordem cronológica e, por muito tempo, perguntei: 'Por que ela e não eu?'. Camile tinha ido a um churrasco numa fazenda perto de Belo Horizonte. Pegou carona no carro de um amigo, que levou outras duas meninas. Na volta, ele não conseguiu fazer uma curva. Dos quatro passageiros, só ela morreu. Não fui ao local do acidente, não fazia sentido. Esperei em casa a remoção do corpo até o IML (Instituto Médico Legal).
Meu marido é médico e pôde entrar no IML sem impedimentos para fazer o reconhecimento. Eu tive de brigar para acompanhá-lo, precisava viver aquele momento por mais duro que fosse. Precisava enfrentar a situação, ver o que a vida me oferecia. Não é a minha melhor recordação, mas vê-la morta foi a única chance de entender que ela estava realmente morta.
Foi um choque olhar seu corpo, que estava deformado, sujo de barro. Camile foi jogada para fora do carro e caiu num rio fétido, cheio de esgoto. Lembro que disse para o meu marido: 'Eduardo, essa é a nossa filha. Olha em que estado ficou a nossa criança'. Não pude tocá-la, o corpo estava infectado. Senti uma dor física, a garganta seca, um aperto em todo o corpo. É muito difícil lidar com essa realidade.
Depois de identificar o corpo, quis escolher a urna e separar a roupa que ela vestiu. Tomar essas providências foram importantes para eu não me iludir. Não quis correr o risco de não acreditar no que estava vivendo. Não quis ser poupada de nada, mesmo vendo ali a interrupção de muitos sonhos. Camile era jovem, tinha a vida pela frente.
Por uns três meses, vivi digerindo a morte, tentando entender a razão da tragédia, a interrupção da vida dessa maneira. A presença dos amigos e dos familiares me ajudou a seguir em frente. O fato de meu marido e eu não nos culparmos um ao outro pela morte também contribuiu para a elaboração do luto. Era um momento novo para todos nós. A companhia das pessoas, as palavras, o carinho... Conviver com crianças, com os filhos de amigos e familiares, também nos ajudou. Foi uma maneira de introduzir vida nas nossas vidas. A sobrinha-neta do Eduardo, que tinha uns 2 anos, foi um anjo para mim. Um dia, ela separou uma sacolinha com seus brinquedos mais preciosos e me deu. Aquilo me tocou profundamente, foi um gesto lindo, nunca vou esquecer.
Passados uns seis meses, fui fazer um trabalho com argila no Salão do Encontro, uma casa em Betim (MG), que organiza oficinas para pessoas carentes. Às vezes abrem as portas para gente como eu. Escolhi trabalhar com argila, porque era uma maneira metafórica de tocar o corpo que não pude abraçar. Representei essa vivência e me senti bem. Vivi uma semana com pessoas simples, sem erudição, mas com muita sabedoria de vida. Me senti acolhida, adquiri confiança de que a vida vale a pena.
Essa vivência e esse tempo serviram para eu compreender que tenho outras tarefas a cumprir. Uma das minhas providências foi montar um altar para meditação no quarto de Camile. É o nosso espaço, o nosso tempo com ela. Depois, Eduardo e eu inauguramos, em outubro de 1998, a API, Associação de Perdas Irreparáveis. É um grupo de pessoas que também estão vivendo perdas. De certa forma, fomos atrás da nossa turma. Lá, falamos de nossas perdas, de nossa dor, de nossos filhos que se foram, porque o passado não pode e não deve ser aniquilado.
Nosso grupo, além de estar se mobilizando em torno da prevenção de acidentes de trânsito, concluiu também o livro 'Do luto à luta' (Ed. Casa de Minas), lançado no ano passado. Nele, há o meu relato e também o de outras famílias. É gratificante ver que outras pessoas estão se fortalecendo com o nosso trabalho. Há uns anos, durante uma campanha nossa, resgatei o contato com o rapaz que dirigia o carro em que Camile estava. Soube que já tinha cometido quatro acidentes de trânsito, o de Camile foi o primeiro com morte. Aí pensei que teria participação se ele cometesse o quinto. Não abrimos processo contra ele, seria um desgaste a mais e não traria nossa filha de volta. Mas valeria a pena se ele tomasse consciência de que precisa ser mais cuidadoso ao dirigir um carro. No fim, ele aceitou se engajar em nossas campanhas. Percebi, então, que não era mais hora de culpá-lo.
A morte de Camile mudou duas coisas em mim. A primeira é que hoje penso que morrer não deve ser tão abominável, apesar de não ter nenhuma tranqüilidade para afirmar que um dia ainda vou encontrá-la. Ainda assim, a morte me parece menos terrível. Por outro lado, acho que tenho o compromisso de conduzir minha vida da melhor forma possível. Ivana, minha filha mais velha, que está com 24 anos, continua recebendo nossas orientações e recomendações de sempre. A primeira vez que ela nos disse que iria para um churrasco com amigos foi um desespero imenso. Era como rever um filme. Mas não podíamos impedi-la. Nossa função como pais é dar condições para que cada um de nossos filhos siga o seu próprio caminho.'

Christine Marie Nunes Santos, 40 anos, fisioterapeuta, mãe de quatro filhos. Tiago, o mais velho, morreu em 7 de janeiro de 2000, aos 21 anos, em João Pessoa (PB)

'Meus filhos estavam de férias em João Pessoa, como acontecia todos os anos. Tiago entrou numa briga, achando que um dos irmãos tinha se envolvido, e foi atingido na traquéia e carótida por um garoto armado com uma faca. Tiago foi levado ao hospital, passou por uma cirurgia complicada e morreu dois dias depois devido a uma complicação pós-cirúrgica. Ele ficou na UTI umas 30 horas. Estava consciente e chegou a falar comigo. Sussurrava, gesticulava, e eu o entendia. Ao me ver angustiada, perguntou se estava bonito bronzeado. Os médicos diziam que, diante da gravidade, ele estava bem. Por causa disso, a notícia da morte foi inexplicável para mim.
Uns dias antes de ser golpeado, Tiago sofreu um seqüestro-relâmpago. Depois de escapar dos bandidos, ele me falou: 'Mãe, quando eu estava no porta-malas do carro, pensei que não podia morrer sem ver você'. Quando lembro disso, me sinto abençoada por ter visto meu filho com vida. De certa forma, nós nos despedimos. Quando o vi morto, vivi aquela dor enorme e passei a acreditar que iria me relacionar com ele em outra dimensão. Sei que nossa separação não é definitiva e, de outra forma, não resistiria. Todos os dias, sento ao lado das fotografias dele e digo: 'Bom-dia, meu filho, onde você estiver. Que seu dia seja de muita paz, muita luz'. Não me importo se alguém acha que estou louca.
Como a morte aconteceu em João Pessoa e nós moramos em Brasília, tivemos de voltar para casa. Pegar aquele avião foi horrível, porque eu voltava para a realidade. Olhar a mesa e ver o lugar dele vazio, acordar de noite e ver a cama dele vazia... Sou uma mãe que gosta muito de tocar os filhos, tenho essa coisa de abraçar, pegar no colo. Tem horas que sinto uma vontade enorme de ver aquele sorriso, sentir aquele abraço... É muito difícil suportar tudo isso, e o que me segura é a fé de que meu filho continua.
Logo depois da morte, queria uma explicação para a vida. Em um mês, li 18 livros, de Einstein a obras espíritas. Estudei tendo os meus filhos, amamentei trabalhando e, depois de todos crescidos, minha sensação é de que nadei, nadei e morri na praia. Às vezes me sinto culpada e penso: 'Como não coloquei meu filho nos braços e não deixei que ele morresse?'. Ele só tinha 21 anos. A verdade é que nenhuma mãe tem controle de nada.
O agressor fugiu e mais tarde se apresentou à polícia. Como era primário, não ficou preso. Depois se envolveu em outra confusão e aí sim foi para a cadeia. Na verdade, sei pouco sobre ele, optei por não acompanhar o processo. Não me sinto em condições de lidar com isso. Preciso continuar vivendo com as lembranças boas de Tiago, de pensar nele bom e saudável. Tenho que me encher de amor para tentar suportar a perda.
Desde que Tiago morreu, faço terapia e também participo de um grupo de mães, o Afago, que é ecumênico. Cada um se expressa a sua maneira, mas o que nos une é a certeza de que nossos filhos se foram e continuam em outro lugar. Não tem nada pior para uma mãe do que achar que acabou ali. A gente fala da morte, mas também fala da vida, dos sonhos.
Minha dor mexe com toda a família. Quero que meus outros filhos sejam felizes. Preciso fazer ceia de Natal, as festas em família vão ter de acontecer, mesmo eu estando cortada por dentro. Olho para cada rosto de meus filhos e sinto um turbilhão de emoções: eles perderam um irmão querido. Tenho de fazer tudo para amenizar a tristeza. Quanto maior a felicidade de um, maior o buraco, o vazio. Tive alegrias enormes com meus filhos, mas sempre vem aquela coisa rasgando por dentro: por que Tiago não está aqui? O tempo todo a gente tenta recolocá-lo na nossa vida.
Na formatura do Daniel, ele decidiu que iríamos a uma missa. Foi um jeito de incluir Tiago na comemoração. O filho que vai, que morreu, vira um bebê de novo, a gente fica tentando protegê-lo. Outro dia, descobri que o antônimo de morrer é nascer. Não existe significado oposto para viver justamente por causa da continuidade. E até hoje, quando me perguntam quantos filhos tenho, digo quatro. Não dá para apagar os 21 anos que vivi com Tiago.' 

Maria Lúcia Pedroso Baliero, 45 anos, assistente social. Mãe de três filhos. Tarsila, a caçula da família, morreu no dia 21 de março de 1995, aos 15 anos, vítima de câncer.
Vai fazer oito anos que Tarsila partiu, vítima de um câncer que começou na tíbia. O tempo ajuda a dor a ficar mais branda. Como sou espírita, criei meus filhos sob esse preceito espiritual, acredito na sublimação, tenho como certa a eternidade. Mas a coisa do beijo, do abraço, do carinho não tem religião que sublime. É uma saudade que não sai nunca da gente. Minha filha recebeu todo o tratamento e carinho de que precisava. Além da quimioterapia, foi submetida a duas cirurgias para a retirada do tumor e a um transplante de sua própria medula. Mas a doença evoluiu. A certa altura, os irmãos mais velhos, Teo e Tais, tiveram de fazer um exame para saber se a medula deles era compatível com a dela. Aí recebi duas notícias de uma só vez: não havia mais muita coisa para ser feita por Tarsila, e Tais, minha outra filha, era portadora de lúpus. Nesse momento, tinha uma filha morrendo e outra com um diagnóstico de uma doença grave. Ninguém pode imaginar o que foi isso.
A história da Tarsila começou com dores nas pernas. Como era campeã paulista de ginástica rítmica com bola, fazia balé e sapateava, o médico achava que as dores eram causadas pelos exercícios. Ela tinha 11 anos quando recebemos a notícia da doença, ela soube de tudo desde o início. Nos quatro anos que lutou contra a doença, não esmoreceu um minuto. Nos intervalos da quimioterapia, queria ir para Paúba, onde temos uma casa. Para ela, Paúba não era só aquela praia maravilhosa, eram os amigos, as estrelas cadentes. Não deixou de freqüentar os treinos de ginástica. Ia careca, de cadeira de rodas, de muletas, com gesso, com toda a dificuldade que se pode imaginar. Queria ajudar a professora a preparar outras ginastas. Também não largou os estudos e concluiu o ginásio. Foi oradora da turma e emocionou a todos. Ela era muito especial.
Em 1995, a doença evoluiu tanto que a morfina deixou de fazer efeito, Tarsila sentia dores insuportáveis. No final, estava sedada. No dia de sua partida, percebi que a respiração estava mais lenta e entendi que aquele era o momento. Eu a abracei e falei coisas que ela sabia, mas era fundamental reforçar o quanto a amávamos, o quanto ela era importante para nós... O momento era esperado, eu sabia que minha filha tinha uma doença grave, sabia de tudo, mas não há preparação possível para a partida de um filho. Senti uma dor tão profunda, mas tão profunda, que fiquei meio anestesiada, com uma emoção tranqüila durante o velório e o enterro.
Superar a dor é complicado. Até hoje não assisto a nenhum vídeo em que Tarsila aparece. Tenho muitas fotos, algumas espalhadas pela casa, mas vídeo não vejo, não dá. A gente vai vivendo um dia depois do outro, com uma dor, uma saudade... Tenho muito o que falar da morte, mas quero pensar nas coisas boas. Deus foi generoso me presenteando com ela durante 15 anos. É duro, triste, mas tento sublimar da forma mais branda possível, até porque tenho certeza que, quanto mais eu falar dela com otimismo, será melhor para todos nós.
Depois da partida de Tarsila, eu tinha de cuidar da Tais. Como não tinha sintomas do lúpus, que pode causar emagrecimento, febre, lesões na pele e até neurológicas, foi poupada de medicação por seis anos, e essa foi a nossa sorte, porque o diagnóstico estava errado. Na verdade, Tais teve uma hepatite auto-imune que não foi diagnosticada nem tratada. Por isso, a doença, a hepatite, acabou destruindo o fígado dela. Eu quase perdi outra filha... Descobrimos o erro só no ano passado, quando Tais começou a ter dores abdominais fortes e a inchar. Procuramos outro especialista, que pediu uma biópsia, e logo soubemos que a situação dela era gravíssima.
Tais fez o transplante de fígado às pressas. Recebeu o órgão em 24 horas, porque poderia morrer. Os riscos da operação são muitos, mas não tínhamos escolha. Tive muito medo. Tais está aí, medicada. Já faz dez meses que passou pela cirurgia... O problema é que a operação é delicada, as oito horas seguintes são fundamentais, depois são não sei mais quantos dias e assim por diante. É uma luta diária. Já briguei muito com Deus, mas também fico imaginando o que tenho de aprender com tudo isso. Não posso acreditar que esse ser superior seja injusto, tenho de tirar uma lição. Quero saber o que tenho de aprender até para não passar mais por isso.'