terça-feira, 13 de novembro de 2012

Resposta de Humberto de Campos a uma mãe aflita Coração de Mãe



Dolorosa e comovedora é a carta dessa mulher maranhense que te chegou às mãos, trazida nas asas de um avião trepidante e ruidoso.
Mãe desesperada, apela para os sentimentos de paternidade que não me abandonaram no túmulo, e grita aflitivamente como se as suas letras tremidas fossem vestígios arroxeados do sangue do seu coração:
“Eu peço a Humberto de Campos que, mesmo do Além, salve o meu filho”! Ele, que não se esqueceu dos que deixou na Terra, não pode negar urna esmola à minha alma de mãe extremosa!
E eu me lembro, comovido, dos apelos que me eram dirigidos pelos sofredores, nos derradeiros tempos da minha vida, enquanto eu naufragava devagarzinho no veleiro da Dor, entre as águas pesadas do oceano da Morte.
Eu daria tudo para enviar, a essa mulher sofredora da terra que foi minha, a certeza de que o seu filho é uma criatura predileta dos deuses. Tudo faria para imitar aquelas mãos ternas e misericordiosas que descansaram sobre a fronte abatida do órfão da viúva de Naim, ressuscitando para um coração maravilhoso de Mãe as energias do filho que padece sob as provações mais penosas.
A Morte, porém, não afasta do nosso caminho a visão estranha da fatalidade e do destino. Há um determinismo no cenário das nossasexistências, criado por nós mesmos.
O mal, com o seu cortejo de horrores, não está dentro dessa corrente impetuosa e irrefreável, mas todos os seus elos são formados pelos sofrimentos.
Os homens de barro têm de batalhar a vida inteira, repelindo o Crime e o Pecado, mas inevitavelmente andarão atolados no pantanal da Dor e da Morte.
O que mais me pungia, depois de haver perquirido as lições dos sábios daí, era a inutilidade dos seus argumentos ante as determinações irrevogáveis do destino. Após haver atravessado as estradas da ignorância despretensiosa, no limiar do imenso palácio das experiências alheias, presumia encontrar a solução dos enigmas que confundem o cérebro humano. Mas, em todas achei o mesmo tormento, as mesmas ansiedades angustiosas.
Frente a frente ao pulso inflexível da Morte, toda a ciência do mundo é de uma insignificância irremediável.
Nesse particular, todo o portentoso edifício da filosofia de Pitágoras não valia mais que as extravagantes teorias doutrinárias propaladas no mundo.
Todos quantos laboram em favor do homem da Terra esbarram nos muros indevassáveis da Sombra. O Cristo foi o único que espalhou, na masmorra da carne, uma claridade suave, porque não se dirigiu à criatura terrena, mas à criatura espiritual.
Assombrava-me o espetáculo pavoroso do mundo, onde as leis, liberalíssimas para a aristocracia do ouro e severas em face dos infortunados que palmilham o caminho espinhoso com os pés descalços e feridos, refletem o caráter humano com os seus incorrigíveis defeitos.
E, despertando de longos pesadelos na porta de claridade da sepultura, a minha primeira inquirição, com respeito aos problemas que me atormentavam, foi uma pergunta dolorosa acerca dos contrastes amargos do mundo. Ainda aqui, porém, os gênios carinhosos da Sabedoria abençoam, a sorrir, os que os interpelam, porque a decifração dos enigmas das nossas existências está em nós mesmos. Apesar do destino inflexível, há uma força em nós que dele independe, como origem de todas as nossas ações e pensamentos. Somos obreiros da trama caprichosa das nossas próprias vidas.
As mãos, que hoje cortam as felicidades alheias, amanhã se recolherão como galhos - ressequidos nas frondes verdes da Vida.
As iniqüidades de um Herodes podem desaparecer sob o manto de renúncias de um Vicente de Paulo. O sensualismo de Madalena foi expurgado nos prantos amargosos da expiação e do arrependimento. Quando pudermos ver o passado em todo o seu desdobramento, depois de contemplarmos a Messalina em sua noite de regalados prazeres, vê-la-emos de novo, arrastando-se nas margens do Tibre, enfiada num vestido horripilante de negras monstruosidades.
Faltou-me na vida terrena semelhante compreensão, para entender a Verdade.
Que essa pobre mãe maranhense considere esses realismos que nos edificam e nos salvam.
E, como um anjo de Dor à cabeceira do seu filho, eleve o seu apelo ao coração augusto d’Aquele que remove as montanhas com o sopro suave do seu amor. Sua oração subirá ao Infinito como um cálice de perfume derramado ao clarão das estrelas que enfeitam o trono invisível do Altíssimo, e, certamente, os anjos da Piedade e da Doçura levarão a sua prece, como cândida oferta da sua alma sofredora, à magnanimidade daquela que foi a Rosa Mística de Nazaré. Então, nesse momento, talvez que o coração angustiado da mãe que chora, na Terra, se ilumine de uma claridade estranha e misericordiosa.
Seu lar desditoso e humilde será, por instantes, um altar dessa luz invisível para os olhos mortais. Duas mãos de névoa translúcida pousarão como açucenas sobre a sua alma oprimida e uma voz carinhosa, embaladora, murmurará aos seus ouvidos:
"Sim, minha filha!... ouvi a tua prece e vim suavizar o teu martírio, porque também tive um filho que morreu ignominiosamente na cruz."
( “Do Correio Paulistano”, 15 de junho de 1936.)
Recebida em Pedro Leopoldo (MG)
Por Francisco Candido Xavier

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

PERDA DE UM FILHO E A DIFÍCIL COMPREENSÃO


Perdi meu neto de 18 anos. Revoltada , eu me perguntava: como Deus permitiu que a mão de um assassino se erguesse para matar a sangue frio um inocente? Inicialmente, paralelo à minha dor, crescia uma revolta enorme. Até que um dia conversei com Deus. Conversei mesmo e , lendo e ouvindo muito, pude entender e aceitar o acontecido. Voltei a ser a pessoa que sempre fui e, acho que até melhor pois nas minhas orações peço que o jovem que tirou a vida do meu menino encontre a paz.

Quando um dos seus pais morre, você perde o seu passado; quando um dos seus filhos morre, você perde o seu futuro.
(Anônimo)

A morte produz inúmeras formas de desordem emocional e de despertar espiritual. O mais importante, no entanto, é compreender que, apesar do forte sentimento de solidão, nunca estamos verdadeiramente sozinhos. Nossos entes queridos estão sempre por perto para nos ajudar a atravessar os momentos mais dolorosos, nos guiar para fora da escuridão e nos conduzir para a luz da nossa própria força. 


Há anos venho orientando milhares de pais que perderam seus filhos. A perda de um filho é, talvez, a coisa mais difícil de ser compreendida. Os pais se recusam a aceitar e acreditar: “Não é natural que um filho morra antes dos pais. Isso não faz sentido!” O ciclo natural da vida é que o filho cresça, se desenvolva, tenha seus próprios filhos e morra depois dos pais. Por isso, quando um filho morre, os pais são dolorosamente obrigados a repensar tudo aquilo que consideravam “normal”, porque suas vidas foram afetadas de modo irreparável pela imensa perda que destruiu os sonhos e a esperança.

No entanto a perda faz parte da vida e ninguém consegue evitá-la. Inevitavelmente, temos todos que enfrentar algum tipo de perda enquanto estamos vivendo neste planeta. Ela é a parte daquilo que nos torna humanos e pode causar muitas emoções intensas: da tristeza à raiva, e até ao ódio. Essas emoções podem nos destruir, mas também são capazes de contribuir para nosso crescimento e nossa evolução. A perda de um filho nos abala mais profundamente porque afeta toda a nossa vida. EM geral, os pais sentem que o filho foi arrancado de seus braços, como se um ladrão tivesse roubado tudo o que possuíam. A dor pode ser intensa demais para ser suportada. Esses  pais se sentem jogados em um grande vácuo e não sabem o que fazer para sobreviver. No entanto, eles precisarão continuar a viver da maneira mais completa possível. Como devem lidar com os sentimentos de culpa, raiva, impotência, dor dilacerante e seguir em frente ao mesmo tempo? Será que conseguirão se recuperar?

Eu realmente acredito que qualquer experiência, por mais horrível que seja, acontece por um motivo e de acordo com o plano de uma alma. O plano de uma alma é um projeto elaborado unicamente para sua evolução espiritual. E alma escolhe certos caminhos para crescer no amor, na compaixão, na bondade, calma, paciência, cura e harmonia. Esses caminhos requerem tenacidade e persistência em situações difíceis — sobretudo a morte de um filho. Cada desafio é planejado para que a alma se desenvolva e vá superando os limites da condição física. No entanto, como todas as almas têm livre-arbítrio, cada uma pode escolher quando e como irá evoluir espiritualmente e superar as imperfeições humanas. Ela faz isso através de repetidas experiências de vida neste planeta e em outras partes do Universo. O principal objetivo do plano de uma alma é a compreensão de que somos todos amor criados pelo Amor. Este é o aprendizado da alma.

Como nosso corpo e nossas emoções limitam a nossa capacidade de compreender aquilo que está além do mundo sensorial, podemos não conseguir compreender o significado por trás de  uma morte ou uma perda. No entanto, não devemos nunca perder a esperança de que mais tarde conseguiremos entender por que tal situação precisava ocorrer e quais benefícios que ela pode gerar.

Carta às mães que perderam seus filhos



Mãezinha querida… Seu coração está em pedaços…
Não há dor maior do que a perda de um filho…
Aprendemos a amá-los de uma forma tão grandiosa, tão completa, que não conseguimos mais enxergar o mundo sem a sua presença ao nosso lado.
Descobrimos um tipo de amor que nos faz crescer e nos faz amar a vida como nunca antes havíamos amado.
E subitamente são levados… Aos poucos meses, nos primeiros anos… Ou um pouco mais tarde. Levados de nosso regaço através da morte tão cruel.
Mãezinha querida… Seu coração pede consolo, pede uma razão para continuar vivendo…
E esta razão estará sempre em seu amor por eles.
Primeiramente pelo amor aos que ficaram e respiram também o ar de seu amar: filhinhos, esposo, pais, amigos queridos.
Mas também pelo amoraos que partiram porque, mãezinha querida, eles continuam a existir e a amá-la como antes o faziam.
A morte não mata o Espírito e também não mata o amor.
“Um pai, uma mãe, nunca deveriam enterrar seus filhos” – diz o pensamento popular, fazendo menção à ordem natural da vida para os que deveriam partir antes.
Porém, a verdade é que você não enterrou seu filhinho, mãe: o que ali foi deixado sob a terra era apenas sua vestimenta corporal para esta breve encarnação.
Seu filho, sua filha continuam existindo. E todo amor que construíram no aconchego de seu lar não foi perdido: será a semente de um novo amanhã, quando voltarão a se encontrar.
Os planos maiores do Universo – ainda desconhecidos por nós – definiram que precisavam ir mais cedo, por razões especiais.
Voltaram para a verdadeira vida, o mundo espiritual, onde estão recebendo todo auxílio necessário para que sejam bem recepcionados em sua nova realidade.
Deus está com seus filhos nos braços, mãezinha.Segura-os através de seus tantos trabalhadores do bem, que estão encarregados de receber as almas após a desencarnação.
Você não perdeu seus filhos, embora a realidade pareça mostrar isso diariamente, pelo buraco que suas ausências na Terra deixaram.
Não… Você não perdeu seus filhos. A desencarnação é apenas o final de uma etapa e começo de outra.
Não perdemos as pessoas, assim como não se perde o amor semeado no coração.
Quando a saudade apertar e o ar parecer faltar, lembre, mãezinha, dos momentos felizes com eles, lembre de abraçá-los com carinho em suas orações aos céus.
Eles receberão seu abraço e ficarão felizes por saber que em sua alma não há revolta, não há ódio ou rancor, há apenas a natural e saudável saudade.
Através da oração você poderá manter um contato constante com eles, pois a prece une os “dois mundos”.
Diga que os ama muito, que sente falta, é certo, e que é este amor que lhe sustenta os dias na Terra, esperando o sonhado momento do reencontro.
Mãezinha querida… Você não está sozinha neste momento difícil: Deus está com você. Conte com Ele.

Redação do Momento Espírita.
Em 22.06.2011.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

PARÁBOLA DO GRÃO DE MOSTARDA



Uma mulher com olhos inchados e a cara banhada em lágrimas
E as mãos ao alto - saudou inclinando-se profundamente:
“Senhor tu és aquele, disse, “que ontem
Teve piedade de mim no bosque de figueiras,
Onde vivo só e crio o meu filho: mas ele
Vagando entre as flores encontrou uma serpente,
Que se enroscou na sua mão, enquanto ria
E brincava com a bífida língua e a boca aberta
Desta fria companheira de jogo. Mas ai! Não tardou
Em tornar-se tão pálido e quieto, que não podia crer
Porque deixou de brincar e meu peito se soltou
De seus lábios. E alguém disse: “Está mau,
Envenenado; e outro: “Há de morrer”.
Mas eu que não podia perder meu precioso filho,
Roguei para um médico, que pudesse devolver a luz
A seus olhos; era tão pequena a marca
Do beijo da serpente, e creio
Que não podia odiar-lhe, gracioso como era,
Nem feri-lo na brincadeira. E alguém disse:
“Há um homem santo na colina -
Olha! Agora passa com seu manto amarelo -
Pergunte a ele se há algum remédio
Para o mal que aflige teu filho.” Então vim
Tremendo a ti, cuja fronte é como a de um Deus,
E chorei e retirei o lenço da cara de meu menino,
Rogando-te me digas que métodos pudessem ser bons.
E tu, Grande Senhor! Não me rechaçando, mas miraste
Com olhos gentis e tocaste com mão paciente;
Logo o cubriste outra vez a cara, dizendo-me:
“Sim, irmã, há o que pode curá-lo
Primeiro a ti e logo a ele, se podes buscar esta casa;
Pois aqueles que buscam um médico lhes levam o
Que os ordenou. Portanto te rogo, encontra
Um negro grão de mostarda; porém recorda
Que não hás de tomá-lo de mão nem de casa
Onde pai, mãe, filho ou escravo haja morto;
Te irá bem se podes achar tal grão.”
Assim tu falaste, meu Senhor!”
O Mestre sorriu
Com extrema ternura: “Sim, te falei assim,
Querida Kisagotami! Porém, acaso achaste
O grão?”
“Fui, Senhor, estreitando contra meu peito
O menino, que estava esfriando, perguntando em cada casa
Aqui na selva e perto da cidade -
“Vos rogo me deis um grão de mostarda vossa”;
E todos os que tinham, deram
Porque todos os pobres têm piedade dos pobres;
Mas quando perguntava: “Na casa de meu amigo
Não há morto por acaso alguém -
Esposa ou mulher ou menino ou escravo?”, eles disseram
Oh irmã! Que nos perguntas? Muitos são os mortos
E os que vivem, poucos!
Por isto agradecendo com triste voz devolvi a mostarda;
E pedi a outros; porém os outros disseram:
“Eis aqui a semente, porém nós perdemos nosso escravo!”
“Eis aqui a semente, porém nosso bom homem é morto!”
“Eis aqui a semente, porém aquele que a semeou está morto
Entre a estação das chuvas e a colheita!”
Ah!, Senhor! Não pude achar uma só casa
Onde houvesse sementes de mostarda e ninguém estivesse morto!
Ah, Senhor! Não pude achar uma só casa
Portanto deixei a meu menino, que não queria mamar
Nem sorrir - junto à vinha silvestre perto do rio,
Para buscar teu rosto e beijar teus pés, e rogar
Onde possa encontrar esta semente, e não encontrar morte
Se em verdade meu filho não esteja agora morto,
Como o temo, e me têm dito.”
“Minha irmã! Você encontrou”, disse o Mestre,
“Buscando algo que ninguém encontra - o bálsamo
Que devia dar-te. Aquele que amavas dormia
Morto sobre teu peito ontem: hoje
Sabes que todo o grande mundo chora tua mesma dor:
O pesar que todos compartem é menor para um.
Olha! Derramaria meu sangue se pudesse deter tuas lágrimas
E conquistar o segredo desta maldição
Que faz do doce amor nossa angústia
E leva flores e pastos ao sacrifício -
Como o fazem as mudas bestas - e seus senhores, os homens
Busco este segredo: anda e enterra a teu filho!”

domingo, 4 de novembro de 2012

Por que dói tanto?


Não há quem caminhe pelas estradas da vida sem que cruze, em algum momento, pelos caminhos da dor. Em um mundo inconstante, onde as certezas são relativas, a dor é processo quase que inevitável.

Algumas vezes, ela vem carregando consigo a separação de quem amamos, pelo fenômeno da morte. Outras vezes é a doença que se instala, no nosso ou no corpo alheio.

Outras ainda, a dor é o revés financeiro, que nos perturba a mente e desfaz alguns planos.

Seja qual for sua origem, a dor vai sempre provocar momentos de reflexão e análise. Ela é o freio que a vida faz em nosso cotidiano, em nossos valores, em nossas manias mesmo, provocando o questionamento das coisas da vida e dos caminhos que percorremos.

Nesse questionamento, alguns optam pelo caminho da revolta. São os que maldizem a Deus, que se vêem injustiçados, pois não mereciam tal desdita, que não vêem utilidade nenhuma na dor, a não ser o sofrimento pelo sofrimento.

Outros utilizam a dor como aprendizado. São os que entendem os mecanismos de Deus como justos, e Deus como infinitamente amoroso para cada um de nós. Isso porque se Deus é a síntese maior do amor, certamente Seus desígnios são pautados pelo amor.

As perguntas: Por que comigo?, Será que eu mereço isso?, ou Para que tudo isso?, são os anseios de nossa alma a tentar entender as Leis da vida.

É necessário que repensemos qual o papel da dor para cada um de nós. Ela não é simples ferramenta de castigo de Deus, ou ainda, obra do acaso.

Um Deus amoroso jamais agiria por acaso, ou castigaria Seus filhos.

Toda dor que nos surge é convite da vida para o progresso, para a reflexão, para a análise de nossos valores e de nosso caminhar.

Sempre que ela surge, traz consigo a oportunidade do aprendizado, que não se faria melhor de outra forma, caso contrário, Deus acharia outros caminhos.

Não que devamos ser apologistas da dor, e buscá-la a todo custo. De forma alguma. Deus nos oferece a inteligência, e os recursos das mais variadas ciências, para diminuir nossas dificuldades e dores.

Assim, para as dores da alma, devemos buscar os recursos da psicologia e da psiquiatria. Para as dificuldades do corpo físico, os recursos clínicos ou cirúrgicos.

Porém, quando todos esses recursos ainda se mostrarem limitados, a dor que nos resta é nosso cadinho de aprendizado. A partir daí, nossa resignação dinâmica perante os desígnios da vida nos ajudará a entender qual recado e qual lição a vida nos está oferecendo.

Quando começarmos a entender que a dor sempre vem acompanhada do aprendizado, começaremos a entender melhor a música da vida, e qual canção ela está nos convidando a aprender a cantar.

Afinal, nada que nos aconteça é obra do acaso. Somos herdeiros de nós mesmos, desde os dias do ontem, e hoje inevitavelmente nos encontramos com nossas heranças.

As carências de hoje é o que ontem desperdiçamos, e as dores que surgem são espinhos que colhemos agora, de um plantio que se fez deliberadamente nos caminhos percorridos.

A dor é mecanismo que a vida nos oferece de crescimento e aprendizado. Porém ela somente será necessária como ferramenta de progresso enquanto o amor não nos convencer e tomar conta do nosso coração.

A partir de então, não mais a dor será visita em nossa intimidade, pois toda ela estará tomada em plenitude pelo amor, que, como bem nos lembra o Apóstolo Pedro, é capaz de cobrir a multidão dos pecados.


Redação do Momento Espírita.

DANO E DOR SEM NOME


Quem perde a mãe é órfão, quem perde o marido é viúva, mas quem perde um filho?

No avião, aquele senhor mais parecendo um artista com seus cabelos brancos, perguntou-me sobre a minha atividade profissional. Informei que era professor na faculdade de medicina e atendia a um convite feito pelo Ministério da Saúde. Disse-me, então, que era Juiz de Direito, mas que a minha responsabilidade era maior. Explicou-me que o juiz pode errar e prejudicar uma pessoa, mas o professor, se for negligente, poderá causar dano em muitas mentes.

Calou-me fundo o comentário e hoje dele me recordo, diante da menina e da administração venosa de vaselina líquida, no lugar da solução salina isotônica. Quem fora seu professor?

Todo ser humano deve se beneficiar dos padrões éticos de maior nível nas ciências biomédicas. Que prova-provação difícil para a mãe ver a filha agonizando e pedindo para que não a deixasse morrer!

Para o Conselho de Enfermagem a semelhança entre os frascos de vaselina líquida, que foi colocada no lugar do soro não justifica erro. “Não é possível confundir quando isso está sendo feito por um profissional devidamente capacitado, qualificado e preparado para aquele procedimento”, disse o membro do Conselho.

Tenho conversado, por e-mail, com uma pessoa que perdeu o filho. Uma carta está no Jornal dos Espíritos (1) A mãe lamenta que o Chico Xavier não esteja mais junto de nós psicografando para aliviar as dores extenuantes, difíceis até de nomear.

Será que podemos pensar a fatalidade venosa utilizando três palavras: imprudência, negligência e imperícia?

Vamos ao dicionário. “Imprudência, em termos jurídicos é a  inobservância das precauções necessárias. É uma das causas de imputação de culpa previstas na lei. Negligência é falta de atenção, inobservância e descuido no agir. Já a imperícia é falta de habilidade ou experiência reputada necessária para a realização de certas atividades e cuja ausência, por parte do agente, o faz responsável pelos danos ou ilícitos penais advenientes.”
 No avião, o que teria dito aquele Juiz de Direito?
O comentário daquele profissional me fez transitar entre a responsabilidade social do cientista e a do docente na universidade. Tentando me antecipar (2) escrevi artigo dirigido aos “da saúde”. “O fornecedor de serviços responde, independente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação de serviços.”

O hospital, ao fornecer serviços de saúde médico-hospitalares, está sujeito às normas do Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei 8078/90). A relação jurídica estabelecida com os seus pacientes é contratual, legítima relação de consumo, com as conseqüências legais decorrentes. As atividades complementares, ao atendimento do paciente, também ficam protegidas pelo manto deste contrato. Entre elas está o serviço de enfermagem. Vamos recordar que a obrigação incluída neste contrato do hospital é de meios e não de resultados. No entanto, a assistência médica deve ser a mais adequada possível, devendo dispor de pessoal competente, nos procedimentos oferecidos aos seus pacientes nos atendimentos, uma vez que no contrato está implícita a cláusula de incolumidade, que tem característica de uma obrigação de resultados.

Neste artigo (2), as palavras-chave foram erro biomédico, Microbiologia Médica, Bioética e Biodireito. Poderia agora acrescentar a prudência, a diligência e a perícia, sempre estimuladas na educação continuada. Melhores serão os resultados, da equipe de saúde, se estivermos diante de profissionais apresentando mestria, qualidade de perito e profundo respeito pela pessoa. Pessoa é o indivíduo na sua dimensão ética, o valor fonte de todos os valores. “A educação da alma é a alma da educação”, psicografou o médium Chico Xavier. Nos fundamentos do Estado Democrático de Direito (CRFB/88, Artigo 1º) vamos encontrar a “dignidade da pessoa humana”. Ao titular desse direito e razão de ser da própria existência, acresce-se o direito à vida, sem o qual a pessoa humana seria inconcebível. O “Rei” cantou: “A vida é amiga da arte”. “Eu vi muitos cabelos brancos na face do artista.”

Abençoadas as cartas do artista da mediunidade(3), aquele que festejamos seu centenário. Com elas, aquelas mães, potencialmente suicidas, puderam perceber que a morte do corpo não mata a vida. Seu filho é imortal! Mãe, aceita a prova, mas não precisa passar com dez. Estamos juntos!

(1)    http://www.jornaldosespiritos.com/2007.3/cartas.htm

(2)    http://jus.uol.com.br/revista/texto/17015/um-centro-de-referencia-na-uerj-prevenindo-demandas-judiciais

(3)    http://www.crisisprodutivas.com/ascartaspsicografadasporchicoxavier/

Jóias Devolvidas


Narra antiga lenda árabe, que um rabi, religioso dedicado, vivia muito feliz com sua família. Esposa admirável e dois filhos queridos.
Certa vez, por imperativos da religião, o rabi empreendeu longa viagem ausentando-se do lar por vários dias.
No período em que estava ausente, um grave acidente provocou a morte dos dois filhos amados.
A mãezinha sentiu o coração dilacerado de dor. No entanto, por ser uma mulher forte, sustentada pela fé e pela confiança em Deus, suportou o choque com bravura.
Todavia, uma preocupação lhe vinha à mente: como dar ao esposo a triste notícia?
Sabendo-o portador de insuficiência cardíaca, temia que não suportasse tamanha comoção.
Lembrou-se de fazer uma prece. Rogou a Deus auxílio para resolver a difícil questão.
Alguns dias depois, num final de tarde, o rabi retornou ao lar.
Abraçou longamente a esposa e perguntou pelos filhos...
Ela pediu para que não se preocupasse. Que tomasse o seu banho, e logo depois ela lhe falaria dos moços.
Alguns minutos depois estavam ambos sentados à mesa. A esposa lhe perguntou sobre a viagem, e logo ele perguntou novamente pelos filhos.
Ela, numa atitude um tanto embaraçada, respondeu ao marido: Deixe os filhosPrimeiro quero que me ajude a resolver um problema que considero grave.
O marido, já um pouco preocupado perguntou: O que aconteceu? Notei você abatida! Fale! Resolveremos juntos, com a ajuda de Deus.
Enquanto você esteve ausente, um amigo nosso visitou-me e deixou duas joias de valor incalculável, para que as guardasse. São joias muito preciosas! Jamais vi algo tão belo!
O problema é esse! Ele vem buscá-las e eu não estou disposta a devolvê-las, pois já me afeiçoei a elas. O que você me diz?
Ora, mulher! Não estou entendendo o seu comportamento! Você nunca cultivou vaidades!... Por que isso agora?
É que nunca havia visto joias assim! São maravilhosas!
Podem até ser, mas não lhe pertencem! Terá que devolvê-las.
Mas eu não consigo aceitar a ideia de perdê-las!
E o rabi respondeu com firmeza: Ninguém perde o que não possui. Retê-las equivaleria a roubo!
Vamos devolvê-las, eu a ajudarei. Iremos juntos devolvê-las, hoje mesmo.
Pois bem, meu querido, seja feita a sua vontade. O tesouro será devolvido. Na verdade isso já foi feito. As joias preciosas eram nossos filhos.
Deus os confiou à nossa guarda, e durante a sua viagem veio buscá-los. Eles se foram.
O rabi compreendeu a mensagem. Abraçou a esposa, e juntos derramaram grossas lágrimas. Sem revolta nem desespero.
*   *   *
Os filhos são quais joias preciosas que o Criador nos confia a fim de que os ajudemos a burilar-se.
Não percamos a oportunidade de auxiliá-los no cultivo das mais nobres virtudes. Assim, quando tivermos que devolvê-los a Deus, que possam estar ainda mais belos e mais valiosos.

Redação do Momento Espírita, com base no cap. Joias devolvidas do livro
Quem tem medo da morte?, de Richard Simonetti, ed. Gráfica São João.
Disponível no CD Momento Espírita, v. 2, ed. Fep.
Em 31.01.2010.